Até onde a apropriação cultural é um problema?

Fala de apropriação cultural é também falar de civilização, costumes e tradição. Mas, afinal de contas o que é cultura? Como a percebermos na nossa Nação? O que de fato caracteriza a apropriação cultural? Vários são os questionamentos em torno dessa problemática. Como ressalta a professora e doutora em Antropologia Social Martina Ahlert, “é preciso compreender também o que seria essa cultura que permite falarmos em grupos culturais – ou tradicionais – que se percebem como diferentes, mas que estão em contato.”.

A discussão sobre apropriação cultural começou a ter repercussão em 2015, cujo ápice foi o penteado com dreadlocks, usado por celebridades dos Estados Unidos como Kylie Jenner e Miley Cirus, ambas brancas, utilizando adereços associados tradicionalmente à cultura negra. Em 2017, ganhou destaque novamente com o caso de uma estudante paranaense, que estava em tratamento contra leucemia e utilizou o turbante para disfarçar a queda de cabelos, devido ao tratamento. A partir daí, cada vez mais tornou-se recorrente e acalourada a discussão sobre apropriação cultural. 

Dentre as diversas considerações a serem feitas, é relevante ponderar até onde a apropriação cultural é algo positivo ou negativo/indevido dentro do nosso contexto social. Como destaca a doutora em gestão de território e patrimônio pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – UTAD, Milena Reis, “ é importante pensar até onde essa apropriação descontrói ou manipula elementos culturais distintos e de que forma pode ser manifestada de uma maneira positiva e até mesmo como uma ferramenta de desconstrução de muitos estereótipos, preconceitos, intolerâncias, há muito continuada através do tempo. ”

Um fato necessário a ser discutido também é o contexto histórico brasileiro, levando em consideração os anos de marginalização, preconceitos, várias “características” que perpassaram ao longo do tempo e são transmitidas por gerações e que ainda hoje fazem vítimas constantemente. Os pais transmitem para seus filhos o que lhes foi ensinado com intuito dos filhos reproduzirem os mesmos valores. Quando é ensinado ao filho que um negro não serve para casar, que índio é preguiçoso e ladrão, que quem usa dread é maconheiro, quem usa turbante tem cabelo ruim, entre outros, a probabilidade do filho reproduzir essas ideologias é muito grande, já que é essa a visão de mundo que lhe foi transmitida.

Os movimentos sociais cada vez mais presentes na contemporaneidade e as políticas públicas voltadas para essas questões se tornaram dispositivos importantes para reconstrução da valorização de cultura antes marginalizadas. “O que transforma os empréstimos culturais – os encontros, os contatos, o aprendizado com os outros – em apropriação cultural indevida é o esquecimento de que essas trocas acontecem em um cenário de desigualdade”, acentua Martina Ahlert. A professora ressalta ainda que é primordial evidenciar que essa diferença cultural existente é importante justamente para ter visibilidade e transparecer nossa pluralidade.

O empoderamento cultural que vem sendo conquistado no decorrer dos anos por diversos segmentos acentua a necessidade de uma discussão saudável e rompimento de estigmas que se perpetuaram e enraizaram em muitas pessoas, além da conscientização de que esses grupos antes marginalizados possuem também uma identidade cultural própria e que precisa ser vista de modo positivo, sendo valorizado, respeitado.

Milena Reis reforça, frisando que “o uso de elementos de uma outra cultura ou identidade, quando utilizado da maneira correta, com a mensagem certa, ao invés de ser um fator negativo, de uso indevido ou inapropriado, se torna um instrumento de fortalecimento e um difusor de uma mensagem de paz, de união, de diferenças, sim, mas de uma maneira saudável, positiva”.

Texto: Yara  Mendes

Revisão: João Carlos Raposo

Reprodução da imagem: http://colunastortas.com.br/2015/09/26/a-mentira-da-apropriacao-cultural/

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