Como a construção do “feminino” na mídia contribui para a desigualdade entre os gêneros

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. A citação, da escritora Simone de Beauvoir, uma das mais conhecidas feministas do século XX, quer dizer que nada difere mulheres de homens senão o papel imposto para cada um pela sociedade. Essas imposições também podem ser chamadas de papéis de gênero e começam a acontecer desde muito cedo.

Uma pesquisa de 2013 da Plan Internacional aponta que 81,4% das meninas de 6 a 14 anos arrumam a própria cama, 76,8% lavam louça e 65,6% limpam a casa, enquanto dentre seus irmãos homens de mesma faixa etária, apenas 11,6% arrumam a sua própria cama, 12,5% lavam a louça e 11,4% limpam a casa. Além disso, meninas são influenciadas a brincar com bonecas e brinquedos que simulem tarefas domésticas, enquanto as brincadeiras de meninos são relacionadas a profissões que exijam coragem, força e que, muitas vezes, reforçam a agressividade. A desigualdade nesses aspectos revela a tentativa de encaixar a mulher desde a infância no papel designado a ela tradicionalmente, o “feminino”: dona de casa, mãe, frágil, vaidosa, subordinada e passiva diante de tantos tipos naturalizados de violência.

Cria-se, então, estereótipos de como cada gênero deve se comportar. Em um mundo movido pela troca de informações, a mídia não faria diferente, uma vez que reflete pensamentos da sociedade. A ideia do feminino, do gênero mais fraco, também é influenciada pelos meios de comunicação. As propagandas, principalmente, mostram mulheres desumanizadas, que não falam ou sentem, e servem somente para o desfrute do homem; impõem padrões de beleza, ditando regras de como elas devem parecer para se sentirem bem consigo mesmas; além de reforçar a ideia da maternidade e da dona de casa consumista.

Roda de diálogos – A ideia errônea do que é ser mulher transmitida a partir da mídia foi a motivação para a escolha do tema da roda de diálogos que encerra o ciclo de eventos do projeto “Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes: Difundir para Respeitar”, realizado pela Agência de Notícias da Infância Matraca. A discussão denominada “Mídia, cultura e gênero” será facilitada pela mestra e doutora em Comunicação Social da UFMA, Larissa Leda, e acontecerá na quinta-feira, 30 de março, das 14h às 18h, no Anfiteatro de Comunicação da UFMA. As vagas são abertas para estudantes e profissionais de áreas diversas. Para participar, basta inscrever-se gratuitamente aqui.

Larissa Leda afirma que, atualmente, a mídia representa o gênero feminino com ambivalência. “Há tanto um discurso que tenta dar lugar à emancipação feminina política, estética e ideológica, quanto o discurso contrário, que são as regras comportamentais designadas à mulher”. De acordo com ela, os padrões impostos servem para determinar um limite ao próprio discurso da liberdade feminina. “A mídia diz que a mulher pode fazer o que quiser, desde que se seja jovem, magra e bela. Esta tríade é uma exigência inatingível. É impossível obedecê-la durante a vida inteira”, reforça a professora.

Larissa explica ainda que a tríade focada na beleza da mulher é apenas uma relação de poder inicial. A partir dela, surgem as de ordem político-econômica, que põem o gênero feminino hierarquicamente abaixo do masculino, mantendo, assim, o sistema regente da sociedade: o patriarcalismo – organização social em que a autoridade é exercida por homens. Dessa relação advêm a desigualdade salarial, a naturalização da violência contra a mulher, a culpabilização da vítima por estupros e as inúmeras violações de direitos do gênero feminino. Lembrando disso, Larissa reforça a importância do feminismo: “Não se trata de pregar a superioridade feminina. O feminismo é uma forma de organização político-ideológica que visa combater as desigualdades de poder entre os gêneros a partir da reivindicação dos direitos das mulheres”.

Para ela, o caminho principal para equilibrar essas relações é a reflexão. Politizando o debate do feminismo, é possível reorganizar as relações de poder e aliviar a carga do patriarcado. O movimento, por tantos anos reprimido, necessita fazer parte das pautas em discussão para que se dissemine a importância da equidade. “É por isso que uma roda de diálogos como essa é tão fundamental, pois abre-se um espaço institucional de debate dessas questões. Este é o caminho para as desigualdades retroagirem: o debate”, conclui Larissa.

 

SERVIÇO

O QUÊ – Roda de diálogos “Mídia, cultura e gênero”

QUANDO – Quinta-feira, 30 de março, das 14h às 18h

ONDE – Anfiteatro de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão

 


Texto: Giovana Kury\Revisão: João Carlos Raposo

Foto: Lucas Fonseca

Print Friendly
Top
%d blogueiros gostam disto: