Discutir as relações étnico-raciais para desconstruir paradigmas

O Brasil tem aproximadamente 20 milhões de crianças com idade entre zero e seis anos, que corresponde a 10,6% da população total. Apesar dos níveis de pobreza e desigualdade de distribuição de renda terem sido reduzidos, muitas famílias ainda vivem com o mínimo de recurso para suas necessidades básicas e isso afeta diretamente a criança, que acaba vivendo sem qualidade de vida. Daí a necessidade de um olhar prioritário sobre a primeira infância como estratégia de desenvolvimento social.

O desenvolvimento da primeira infância no Brasil é repleto de desigualdades, ainda mais quando se leva em consideração as relações étnico-raciais. Para debater essas questões, a Agência de Notícias da Infância Matraca, por meio do projeto “Primeira Infância em Rede”, realizou uma roda de diálogos com o tema “A importância de discutir as relações étnico-raciais ainda na primeira infância”, facilitada pela assistente social, mestra e doutoranda em Políticas Públicas e professora da Ufma, Carla Serrão, voltada para alunos de comunicação e áreas diversas. “As violações de direitos sofridas ao longo da história nos obrigam a ter agora um olhar diferenciado para a primeira infância”, diz a facilitadora.

É importante que a sociedade e o Estado assegurem os direitos das crianças de maneira igualitária. As crianças indígenas, por exemplo, permanecem como sujeitos invisibilizados nas políticas públicas. “Morrem mais crianças filhas de mães negras (37%) e indígenas (138%) com idade entre zero e seis anos do que de mães brancas”, relata Carla Serrão.

“Assegurar o direito à diferença implica o respeito às personalidades e aos projetos individuais da existência, bem como a consideração e valorização dos diferentes saberes e culturas”, afirma o Plano Nacional da Primeira Infância (carta compromisso do Brasil para garantir o atendimento a todos os direitos da criança), daí porque é necessário atender às diversidades: a criança negra, indígena, quilombola, branca, entre outras. “Quando o diálogo começa dentro de casa e se expande para outros lugares, a criança cresce sem preconceito, possibilitando um desenvolvimento sadio. A importância de discutir as relações étnico-raciais na primeira infância possibilita que a criança quando jovem, adulto, seja ciente do que ele é, de suas raízes e essências”, diz a terapeuta ocupacional, Gisele Padilha.

Por conta de suas origens, ascendência, muitas crianças sofrem preconceitos, constrangimentos, violência, e essas violências deixam marcas para a vida. Por isso, a relevância de tais problemáticas serem trabalhadas desde a primeira infância, para que a criança de hoje não venha a reproduzir esse mesmo comportamento no futuro.

“A discussão foi muito produtiva, pois trouxe a questão da primeira infância relacionada às políticas públicas, como o empoderamento social que as pessoas têm referente às questões étnico-raciais, e como se posicionar em frente a esses paradigmas.  Isso é algo rico e ajuda a promover mudanças sociais, no sentido em que as pessoas saem de um discurso moral, que já foi previamente construído, e vão para um discurso ético, sendo sujeitos políticos”, avalia a estudante de Psicologia, Thales Coellho.

Texto: Yara Mendes/ Revisão: João Carlos Raposo

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