São Luís/MA, 12 a
18/11/2007> Edição nº153
SUGESTÃO DE PAUTA DA SEMANA
Semi-árido
celebra 1 milhão de pessoas com cisternas*
A celebração acontece em Feira de
Santana (BA), no dia 13 de novembro, e comemora um milhão de
pessoas alcançadas pelo Programa 1 Milhão de Cisternas,
desenvolvido pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro
(ASA)
Mais de três mil agricultores e agricultoras de do Semi-Árido
brasileiro serão os protagonistas desse evento, simbolizando
todos os homens, mulheres e crianças que conquistaram, através
do P1MC, o direito à água de qualidade para beber e cozinhar.
Um grupo de 20 famílias irá representar o Maranhão
na cerimônia. O ato público também tem como objetivo
mostrar à população, às organizações
parceiras da ASA, e ao Poder Público, a importância de
políticas voltadas para a convivência com a região
e de que forma essas ações contribuem em outros aspectos,
como na educação, na saúde, e na segurança
alimentar. O evento também pretende tornar visível a importância
do acesso à água como um direito humano básico
que necessita ser urgentemente efetivado para toda a população,
em especial para o povo do Semi-Árido.
A celebração também pretende chamar atenção
para um período de indefinições no P1MC. Isso em
decorrência da incerteza de renovação do convênio
que a ASA mantém com o Ministério do Desenvolvimento Social
(MDS), que repassa os recursos para a construção das cisternas.
A ASA segue em negociação com o Ministério há
mais de 6 meses. No entanto, não há perspectiva até
o momento, da renovação do convênio, que financia
80% das atividades. O temor é que esse atraso possa prejudicar
o ritmo de desenvolvimento do P1MC e desperdiçar o período
de chuva, que está se iniciando no semi-árido e época
de captação da água.
O P1MC - Ter água de qualidade
pra beber na época de estiagem no semi-árido é
o sonho de muita gente. Era! Por enquanto, um milhão de pessoas
que vive no semi-árido já dispõe de uma cisterna
de placas que capta água da chuva no período do inverno
sertanejo para ser consumida no período de seca. A conta é
simples. Por meio do P1MC já foram construídas 221.514
cisternas no semi-árido, com 1.031 municípios atendidos.
Os números da ASA mostram que no semi-árido maranhense
foram construídas 1.111 cisternas nesse período. Se cada
cisterna atende, em média, cinco pessoas por família,
se chega a um milhão de pessoas. A meta do P1MC é a construção
de um milhão de cisternas, destas pouco mais de sete mil no Maranhão,
alcançando pelo menos cinco milhões de pessoas no semi-árido
brasileiro.
Mas o P1MC não se resume apenas à construção
de cisternas. Por isso o nome do programa é tão longo:
Programa de Formação e Mobilização Social
para a Convivência com o Semi-Árido: 1 milhão de
cisternas rurais. De forma paralela à construção
das cisternas, as famílias participam de capacitações
em gerenciamento de recursos hídricos. É o momento da
discussão sobre como é possível a convivência
com o semi-árido e de como cuidar da cisterna para que ela ofereça
água de qualidade o tempo todo. O P1MC tem até iniciado
uma discussão sobre as relações de gênero
no semi-árido. Muitos dos pedreiros que constroem as cisternas
não são pedreiros, são pedreiras, que vêem
na ação uma possibilidade de enfrentar o poderio machista
que ainda vigora no semi-árido.
Um dos segmentos da população do semi-árido mais
beneficiado com a construção das cisternas são
as crianças. E é fácil perceber porquê. Uma
das principais causas da mortalidade infantil no semi-árido é
as doenças de veiculação hídrica, causadas
pela ingestão de água imprópria para o consumo.
Na busca de água para beber, as crianças também
são utilizadas como mão-de-obra, enquanto pais e mães
vão para a lavoura, incentivando o trabalho infantil. Quando
são muito pequenas, as crianças ficam em casa sob os cuidados
de algum irmão mais velho, enquanto os outros vão buscar
água a grandes distâncias. Isso aumenta a probabilidade
de acidentes domésticos, acentuando a vulnerabilidade infantil.
Números pra ninguém botar
defeito - A prestação de contas de todas as etapas
de desenvolvimento do Programa 1 Milhão de Cisternas está
disponível no site da Articulação no Semi-Árido
Brasileiro (ASA). Nela, você pode acompanhar os dados físicos
e financeiros do Programa. Para dar mais agilidade e segurança
no acesso a essas informações, a ASA adotou o Sistema
Integrado de Gestão e Auditoria (SIGA) como ferramenta. O SIGA
foi criado em 2001 com o apoio do Banco Mundial (BNWPP) e Agência
Nacional de Águas (ANA). Estão disponíveis as informações
financeiras, indicadores físicos e a relação completa
dos municípios e comunidades atendidas.
Nas informações disponibilizadas, pode ser encontrada
a lista com todas as famílias mobilizadas, a lista com os nomes
de todos os participantes dos cursos de gerenciamento de recursos hídricos
e convivência com o semi-árido e os indicadores de atendimento
por município. Além disso, as cisternas são entregues
formalmente à família por meio da assinatura de um Termo
de Recebimento, que traz a assinatura dos membros da família,
uma fotografia do momento da entrega e a localização da
cisterna, indicada pelas coordenadas geográficas referenciadas
por uma aparelho de geoprocessamento (GPS).
As cisternas - As cisternas são
reservatórios cilíndricos, construídos próximo
à casa do(a) agricultor(a), que armazenam a água que cai
no telhado e é captada por uma estrutura construída com
calhas de zinco e canos de PVC. A cisterna é uma tecnologia de
baixo custo, de domínio dos agricultores e das agricultoras e
de comprovada eficiência técnica. Cada cisterna do P1MC
tem capacidade para armazenar 16 mil litros de água, quantidade
suficiente para uma família de 5 pessoas beber e cozinhar, por
um período de 6 a 8 meses – época da estiagem na
região. O custo, em média, de cada cisterna é de
R$ 1.450.
A ASA - A Articulação
no Semi-Árido Brasileiro é uma rede de organizações
da sociedade civil que trabalha pelo desenvolvimento social, econômico,
político e cultural da região. Atualmente, a ASA reúne
cerca de 750 organizações da sociedade civil, dos 11 estados
do semi-árido brasileiro (os nove estados do Nordeste mais partes
de Minas Gerais e Espírito Santo), entre elas sindicatos de trabalhadores
rurais, associações de agricultores, cooperativas de produção,
igrejas católicas e evangélicas, ONG´s de desenvolvimento
e ambientalistas, entre outras.
Dona Josefa: a primeira com cisterna do
P1MC - A agricultora Josefa da Rocha Freire nasceu em 1943, na
comunidade Ilha do Tamanduá, no antigo município de Sento
Sé, na Bahia. Mas, com a construção da Barragem
de Sobradinho na década de 70, os moradores de Sento Sé
tiveram que se deslocar para outras localidades, pois, a cidade, juntamente
com outros três municípios baianos (Casa Nova, Remanso
e Pilão Arcado), teve que ser inundada.
A família de Dona Josefa, que na época já era
casada e tinha dois filhos, teve que se mudar para a comunidade de Lagoa
Grande, em Sobradinho, também na Bahia. Chegando ao novo pedaço
de chão, ela conta que sofreu muito devido a escassez de água
na região. “Quando eu cheguei aqui, eu estranhei muito.
Lá [em Sento Sé], eu bebia a água do Rio São
Francisco, e aqui, eu tive que beber água de umas cacimbas que
eram construídas no leito de um riacho. Quando chovia, a gente
ficava esperando a cacimba encher para poder pegar a água. Quando
vinha a seca, a água se acabava e era um problema grande. Tinha
vez que a prefeitura colocava água pra gente. Mas, isso deixava
a gente muito dependente. Se a prefeitura não mandasse o carro-pipa,
a gente ficava sem água”.
E foi assim que Dona Josefa foi levando a vida de 1976, quando se mudou
para Sobradinho, até o ano 2000, quando se tornou a primeira
pessoa beneficiada com a conquista da cisterna de número 1 do
Programa Um Milhão de Cisternas Rurais (P1MC), da Articulação
no Semi-Árido Brasileiro (ASA). “Pra mim, ser a primeira
pessoa beneficiada com a cisterna do P1MC, só pode ter sido Deus
que ouviu o meu clamor e o meu sofrimento. No dia que recebi a minha
cisterna, foi uma grande festa na minha casa. Até o Sarney Filho
[na época, ministro do Meio Ambiente] veio para a inauguração.
Eu fiquei muito feliz e emocionada”, diz Dona Josefa.
Dona Josefa faz um alerta aos agricultores e às agricultoras
que ainda não foram beneficiados pelo P1MC. “O recado que
eu deixo para as famílias que ainda não conquistaram a
cisterna é que lutem muito para conquistar a sua. É muito
importante ter uma cisterna em casa. A minha, apesar de já ter
7 anos, continua bem conservada. Desde que eu ganhei a cisterna, nunca
mais faltou água para beber na minha casa”.
Mais informações:
ASA Brasil
(81) 2121-7666
www.asabrasil.org.br
João Otávio (Amavida, integrante da ASA no Maranhão)
(98) 3246 6679 / 8126 1881
• Com informações da Assessoria de Comunicação
(ASACom) da Articulação no Semi-Árido Brasileiro
(ASA)